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Governo Municipal de Raimundo Nonato Andrade: estabilidade política e melhoramento urbanístico.

Foto: BitorocaraBlog

Os Bona não apenas conseguiram e mantiveram-se no poder local por quase três décadas, como também consolidou sua influencia na administração municipal com a ocupação em diversos cargos públicos em várias gestões, seja efetivos e/ou temporários. A chegada de Raimundo Andrade a prefeitura nos idos de 1960 representou a consolidação política de mais uma família no cenário político campo-maiorense dominado pelas famílias Bona e Pacheco. Depois de Raimundo Nonato de Andrade a família nunca mais teve um nome de destacada expressão na política campo-maiorense.

No governo de Raimundo Andrade houve uma atenção especial para a educação na tentativa de resolver velhos problemas que teimavam em emperrava o andamento do ensino municipal. Ele viabilizou projetos tanto na área de infraestrutura (construção e reformas de escolas) como de superestrutura (implantação de programas educacionais-Movimento Brasileiro de Alfabetização – Mobral, implantação de um calendário escolar que absorvesse maior número de alunos possíveis por turno e buscou o melhoramento pedagógico do professorado). Houve uma melhora significativa da educação na gestão de Andrade, porém salienta-se que também não deixou de praticar no seu governo a velha política do empreguismo público neste setor em detrimento do concurso público, no intuito de atender interesses meramente de aliados políticos. Assim como Raimundo Santana, sua identificação com a educação é tanta que sempre preferiu ser conhecido mais como professor que político.

A gestão de Raimundo Andrade também não descuidou do aspecto urbano da cidade, como asfaltamento de ruas e avenidas, embelezamento de praças, serviço de saneamento, construção de edifício; enfim, uma nova reestruturação urbana assentada numa estética moderna e progressista. Para a zona rural, a administração de Andrade elevou a categoria de povoado à localidade Conceição do Boqueirão (Hoje município de Sigefredo Pacheco), atendendo interesses políticos e visando melhorar a infraestrutura (posto de saúde, grupo escolar, energia elétricas e estrada) dessa importante comunidade rural, que juntamente com Nazaré e Jatobá completaria o ciclo de formação urbana, delimitação territorial e reconhecimento institucional dos três principais núcleos populacionais de regiões eleitorais do interior do município, vindos a se desmembrar político e administravamente de Campo Maior na década de 1990. Outro fato notado durante a administração de Andrade foi à implantação de mais agências e sede regionais de órgãos/departamento federal e estadual (Telepisa, Cepisa, INSS…) que consolidaria de vez Campo Maior como a principal região de serviços e negócios do centro norte do Estado do Piauí.

Extremamente político, Andrade utilizou-se de prestigio e da autoridade que detinha para defender aliados e correligionários de críticas da oposição, mesmo aqueles acusados de desvios de condutas morais e sociais que contrariava as exigências éticas que regiam sua administração. Raimundo Andrade saiu em defesa do seu governo quando via a intromissão do legislativo em assuntos, que segundo ele era exclusivo do executivo. Conflito político entre o prefeito e vereadores se dava em questões de assuntos relacionados ao secretariado. Saindo na defesa do secretário de educação- acusado de maltratar professores- Raimundo Andrade enviou um ofício contendo uma mensagem áspera a Câmara Municipal, ao referi que tal problema era de assunto exclusivo do executivo, não cabendo interferência do legislativo. Houve com isso uma crise política entre os dois poderes.

Em certos aspectos, Andrade manteve o governo atrelado à administração paternalista, ao proteger privilégios da elite. Assim como ocorreu na gestão de Oscar Castelo Branco ao beneficiar Honório Bona com perdão de impostos sobre imóveis, incluindo as casas de alugueis para prostituição na Rua Santa Antônio; na administração Raimundo Andrade é Antônio Bona Neto o agraciado com o cancelamento de imposto de qualquer natureza contra a sua empresa.  Andrade era rigoroso no deferimento deste tipo de petição, por haver protesto de vereadores relacionado à concessão de privilégio no perdão de juros e multas, ou de pagamentos de tributos.  Houve questionamento por parte de alguns vereadores ao beneficio fiscal dado a Bona Neto pelo governo. O vereador de oposição Mamede Lima requereu do prefeito:

Informação (…) para a cobrança de imposto de qualquer natureza, uma vez que, é sabido que o movimento de bilhar em comparação com os bares dos Senhores Antônio Crisostomo de Sousa, Luiz da Costa Araújo, haverá, portanto muita diferença para comparação com o do Sr. Antônio Bona Neto, agradecendo um esclarecimento mais restrito. Havendo várias opiniões em torno do assunto, tendo em seguida o plenário dando apoio a solicitação do vereador Joaquim Mamede Lima (ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de 06 de abril de 1970).

Em outra ata, Joaquim Mamede Lima reformula o conteúdo da ata anterior (06/04/1970) ao dizer textualmente “não havendo falado no nome das firmas possuidoras de bilhar”. Houve de certa forma um desconforto político do parlamentar com tal pronunciamento. Teria sofrido pressão política pelo fato para ter voltado a atrás no seu pronunciamento? Ou foi uma forma de resguardar seu discurso numa posterior defesa contra acusações supostamente infundadas por inimigos políticos do vereador que queriam o indispor politicamente com a família Bona, assim como aconteceu com o parlamentar Francisco Pedro Barros em legislatura passada, quando este sugeriu a mudança de nome da praça central da cidade de Bona Primo para Santo Antônio, mexendo assim com o brio e a memória dum ilustre membro da família Bona.

O espirito cívico impregnado pelo regime militar no país contagiou a administração de Andrade culminando na criação da Bandeira de Campo Maior depois de século de emancipação política do município.

A administração municipal de Raimundo Andrade é digna de apreço, no entanto há que se fazerem algumas ressalvas. Andrade não tentou lutar para acabar com um dos maiores problemas que tratava o desenvolvimento burocrático da prefeitura: a mentalidade retrógada de agentes públicos (sobretudo de políticos e das famílias políticas) que influenciavam nas decisões técnicas e políticas do governo, ao contrário, se manteve, em parte, atrelado aos princípios do mandonismo e do clientelismo. Nem ele e nem o destemido Raimundo Santana conseguiram eliminar essa praga ideológica do serviço público, resquício dos tempos de Brasil Colonial. Os governos são formados a partir de diferentes coalizões que representam interesses múltiplos e contraditórios, impedindo o gestor de realizar um governo sintonizado com o desejo popular.

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